A flor murcha, da janela, pode ver o cristo.
Faltou água e sol.
Se não fosse murcha não existiria. Precisou perder cor para ganhar vida.
Ganhou então a imortalidade numa pasta dentro duma pasta.
É na noite fresca que começa o fim da história.
E nos sons em atrito do asfalto.
No silêncio lá em cima soa a melodia das pétalas por entre os vidros surdos das paredes cinza.
Única e só e triste e arte.
Morreu planta, nasceu linda para o mundo apreciar.
E o cristo, rijo, da montanha, pode ver a flor.
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
queria entender como a gente coloca tanto amor nas coisas
um pedaço de jornal
aquela cena daquele filme
foto com aquelas pessoas
o chapéu que eu comprei na montanha
a xícara de louça inglesa
a odisséia em quadrinhos
a pasta com a pintura do van gogh
um pinguim da travessa
aquele tênis nike vintage
uma blusa tie die
o livro do teatro pós-dramático
o bonequinho do bloco do eu sozinho
garrafas de vidro
flores que apodrecem
o ingresso do filme da marina abramovic
gato de botas em pelúcia da infância
mochila de couro
botons: pokemon e super mario.
terça-feira, 20 de novembro de 2012
pálpebra e estômago
essa vida toda toda de odisséias
fico me perguntando até onde foi o destino de tudo que já passou
um homem morreu com uma taça no bolso
outro foi castrado e enlouqueceu.
onde tudo vai parar?
o tempo urge no ritmo do telejornal
o tempo o tempo o tempo
quem tem sorte é estátua que é pra sempre
quem tem sorte é a ribalta que é efêmera
ser perene as vezes incomoda
continuar,
cansa.
fico me perguntando até onde foi o destino de tudo que já passou
um homem morreu com uma taça no bolso
outro foi castrado e enlouqueceu.
onde tudo vai parar?
o tempo urge no ritmo do telejornal
o tempo o tempo o tempo
quem tem sorte é estátua que é pra sempre
quem tem sorte é a ribalta que é efêmera
ser perene as vezes incomoda
continuar,
cansa.
domingo, 11 de novembro de 2012
Joelho
Era um menininho. Bracinhos, mãozinhas e bochechinhas. Andava pelo mundo sem alcançar o joelho dos outros, que eram pessoas enormes. Só enxergava por debaixo das pernas. Correu para crescer e cresceu, mas as canelas nunca lhe pareceram tão familiares. Juntamente, os outros se agigantavam ao seu redor. Em dado momento, se desesperou na tentativa de escalar grandes amigos. Caiu mais de uma vez, fraturou o dedo anular, mas recuperou bem, como de costume. Não mais tentou crescer, acreditando na possibilidade do processo inverso. Queria poder olhar as pessoas nos olhos cara a cara. Mas nada aconteceu, tudo ficou como estava. Se ele aumentava um pouco, o mundo o acompanhava. Ele aprendeu a viver assim. Única depressão geográfica na multidão. Menino fora de casa. De outro mundo de baixo para cima. Olhando tudo do seu ponto de menino.
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